Nunca é tarde demais, mas sei que já vem tarde esta viagem. Isto são pequenos pedaços de nada que escondi, esqueci, deixei a marinar... Uns no pó de gavetas, outros no pó de mim mesmo. Já era altura de verem a luz... Disfrutem.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

O Fundo

Ainda te vejo a sorrir.
Está queimado nos meus olhos, isto.
Estã tatuado na minha pele, ali onde é suposto ter um coração
Ainda dormes (ou sou eu que te vejo a dormir)
Tentei acordar-te, mas desisto.
Estás escondida na mesma pele, ali acima de onde é suposto ter a gratidão
Estás por dentro dela, aninhas-te entre as minhas veias
Enrolas-te nelas, como tuas teias
E fazes de mim renda respirada em ti
E saio disto como um naperon de televisor
Metade desconforto, metade calor
Outra metade amor
Outra metade assim,Partido
Completo
Sem aspecto definido, um projecto inacabado
Ou projecto concluído, sem aspecto desenhado
Mas acordas,espreguiças-te  e sorris-me
E os meus muros rebolam, e no fundo
Sorrio
Porque no mesmo fundo
Me fizeste um
Do lodo
Me fizeste barro
Porque me encheste o vazio
Porque se te agarro
Não sinto mais frio
Aconchegas-te-me  onde tenho tudo
E beijas-me no fundo
De mim

E nesse bocado fico um todo.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Haiku

É amarga a chuva

Abraças-me a cintura sem lá estares

Já não tenho frio




( É amarga a chuva se penso muito nela

E é fria se olho para ela com os olhos levantados

As tuas mãos abraçam-me a cintura

sem eu as pedir

não estás lá

mas tenho um sabor doce na boca

e frio não )

terça-feira, 4 de maio de 2010

Boa Noite Assassina


As lápides de cimento armado caem-te em cima
com o peso de um suspiro cansado
magoado
decadente
uma cidade feita da neblina de lamentos
repetidos até não fazerem mais sentido
que te agasalha
como um cobertor feito de cinzento
feito dos ossos de que são feitos os teus sonhos
Esta cidade tem dedos.
E apertam-te, os malditos...
Esmagam-te
Engasgam-te com o seu suor de sabor a vidro
Causa-te desconforto esse colete de forças
essa corda transparente.
queres puxar um grito do fundo da tua claustrofobia
Queres bater no mundo
mas o cabrão é maior que tu...
e sôfrego de afronta baixas a cabeça
porque já perdeste a coragem de olhar em frente
de dizer para os olhos dos mortos que viajam contigo
"eu também sei o que é isso"

Dói-te o anteontem
e logo agora que se te acabaram os comprimidos....

Paisagem


A vista daqui é linda
Anda ver...

Olha ali as árvores queimadas do meu pensamento
e as pedras... Rugosas, ásperas, gémeas dos meus sentidos
enegrecidos
O vento suave dá-me chapadas meigas
rudes como as minhas palavras

O ar da montanha dos meus arrependimentos
enche-me os pulmões de sede
meu coração preto como um braseiro
apagado
assincopado
bombeia-me cinza pelas veias
para o corpo inteiro
desmaiado
Pompeia-me uma nuvem de desejava's
aldraba-me a língua e entontece-me
embebeda-me
sim, tu. embebeda-me com o teu nada!
adormece-me os membros com a tua semiótica
droga-me com a tua vontade de ser teu
Tira-me daqui agora.
leva-me
carrega-me nos braços das tuas frases-feitas
quero descansar os olhos de não ter visto nada

Vê se a vista daqui é bonita
Vem ver
Que eu não consigo

quarta-feira, 10 de março de 2010

Vê lá bem. Se calhar foi o Caldo Verde



envergonhaste o sol com a voz
deixaste-o amuado confuso, tonto
angustiado... triste, pronto!
a murmurar "já fui. a lua virá aí, após"

Determinaste o céu com o olhar
para que ele te fosse indeciso,
ser consolo, ser-te preciso
ser-te sentido, sentir-te a pulsar

inventaste trinta e meia maravilhas
para que as quisesses fazer
ocorrer
e trinta e duas meias guerrilhas
para as fazer adormecer
morrer

queres sentir-te viva afinal
ainda és dona, dor de um instante
de um fino charmoso elegante
je ne sais quoi intelectual

animal
e sempre sempre a tua fome
doente
de viver
fundamental

rainha doida que ocupa ausente
o sempre carente trono do desalento
o punho dormente pede-te que o lamento
que te dorme na boca se lamente
de vez
e de repente
3

2

um estalo de ti faz-te vir a ti
depois?
tudo parece anormal
fundamental
outra vez
nada mais deixou de ser castanho aqui

e a boca sabe-te a um orgasmo ao contrário
se é que sabes de quem ou a que sabe
se não ocupa lugar, o saber, sabor, onde cabe?
sapienta, saborosa, ris-te do teu insano corolário


tens os fios de sabedoria a pender da tua deiade
enquanto a tua enormidade
escorrega da verdade fundamental
que se apoia na ovalidade
e perfeito apoio elementar
(ocasional)
de uma estrutura filosófica vulgar
de um material
fantástico
que mais não é que normal
Plástico

e contudo, tremente
premente
ainda
sempre sempre a tua vontade
doente
de viver
fundamental



e quando ainda a tua vontade doente
fundamental
animal

é presente
de viver
se calhar, vê lá bem
ela se calhar é maior que ti, sem querer

Vá lá......




Dá-me boleia
Para esse sítio que sussurras
Onde a Lua não desce
Nem o Sol aparece
Dá-me o lugar do morto
que seja
debaixo dessa ponte
que tens medo de passar
Onde,com medo de gritar
Segredas...
Um abrigo
onde possa descansar
No teu jazigo bom
Onde morrem os meus medos
Onde a tua maravilha se esconde
e não me deixas entrar
transporta-me
quero saber o teu segredo
falar do tempo que faz e de conversas sem sentido
se calhar já vias os teus amortecedores
e me contavas o que te faz franzir os olhos
o que os faz brilhar
o que os faz sorrir
Quero um tandem
a dois!
e uma fotografia sépia de nós
comigo de bigode e contigo de ti
um pic-nic no campo, uma toalha aos quadrados
e esse teu sorriso parvo
quente
calmo
adorme.....ce...n...te...
quero saber que doença estranha tens que não te deixa chorar....
e acordo
sem bigode
sem ti
sonhar e tudo quanto escrevi não passou de um sonho...
o cliché mais cliché ....
mas acordo e sonho de pé
e sorrio como tu
Acto I:
estou á beira da estrada
estava á tua espera
que me abrisses a porta e me perguntasses
"para onde vais?"
e eu sorrisse e dissesse
"para ti"

domingo, 24 de janeiro de 2010

Calma


Dormem almas vagabundas, apagadas
Inocentes, numa cama de marasmo
e cantam, presas, como vozes de um orgasmo
por grilhetas de razão aferrolhadas

Fluem mudas pela pena que as criou
Indolentes, de vontades indomadas
Pois a vida sao somente as madrugadas
que um desejo moribundo abandonou