Nunca é tarde demais, mas sei que já vem tarde esta viagem. Isto são pequenos pedaços de nada que escondi, esqueci, deixei a marinar... Uns no pó de gavetas, outros no pó de mim mesmo. Já era altura de verem a luz... Disfrutem.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Calma


Dormem almas vagabundas, apagadas
Inocentes, numa cama de marasmo
e cantam, presas, como vozes de um orgasmo
por grilhetas de razão aferrolhadas

Fluem mudas pela pena que as criou
Indolentes, de vontades indomadas
Pois a vida sao somente as madrugadas
que um desejo moribundo abandonou

Breve dissertação sobre a desilusão da Gramática


Tenho vontade canibal
de me morder
E escrever
Sobre não conseguir escrever
sobre o que não quero dizer
Mas contrária aos meus protestos
veementes
ao que parece
a caneta continua a correr
Definitivamente
já nem a minha vontade me
obedece.
Olá folha, confidente
(não me responde....) Insolente!
,diz a boca (...alega que não me conhece)
e os olhos (para quem a minha opinião não é assim tão importante)
seguem, em calma e distraída souplesse,
a tinta que ejacula alegremente
neste mar de celulose
que se apresenta á minha frente.
Um orgasmo lexical
que continua a desfilar
despreocupadamente
a desfiar a minha mente
sem nexo
sem sexo
no quadrado
de lado
maior vertical
que é esta pedaço branco de matéria vegetal.
Despudoradamente
desordenadamente
Sem ter em atenção
a vontade e a razão
do dono do punho que desespera
(com indisfarçável ansiedade)
pelo fim da dissertação
Era tão bom, não era?
Que a Humanidade
fosse apenas uma mera
força de expressão?.....

sábado, 23 de janeiro de 2010

Na cama de Lúcia



Ficava triste Lúcia
e
numa noit
ensopava a almofada com os medos
Olhando o mar que não existia ali
Só pó e pedras e dor e morte
Naquela muralha agora sua
De súbito a vida..
a tão esperada tão odiada vida
perdida num eterno instante
num infinito agora
num imenso hoje tão noite
era a vida que a chamava
a outra ela
A sua esperança gritava por vingança
dentro dela
Um lugar que nunca tinha tido nada
Estava vazio
a sua solidão tinha ali partido
Abre os olhos tristes, Lúcia...
Pobre Lúcia
Triste Lúcia
Olha para o nada que te chama dali mesmo
Do teu reflexo
Olha para a surdez de olhar para ti Continuas a chorar o adeus dos teus desabafos?
A morder o ressentimento dos teus passados?
ingénua Lúcia.... Fecha os olhos agora... Já nada existe.... Nem sequer tu.

Epitáfio de um amor estacado





Estalo os cascos na Via Ápia de ti
e das pedras apenas brota sangue
Apenas jorra Muito,
por te amar assim,
corrosivo
distante
calado.
Tenho prazer nesta obsessão?
Já não sei...
Sei que acho que tenho a certeza
que talvez os meus sonhos
Sejam feitos do teu descanso
Rebolam alegres em mim quando durmo
Assobiam-me ao ouvido uma brisa indecisa
Os teus olhos passam através de mim como faíscas de indefinido
e os teus lábios pedem-me orações carnívoras de paixão e remorso
Tudo em ti me socorre
Chamo por ti
procissão maldita de todo tu e nenhum eu
Rasgo todo o sentimento
despedaço o amor, paixão
luta
E tu sorris...
E apanhas os pedaços como confetti de papel pardo
para os esculpir na forma do teu infinito.
Não sou meu se não te saborear.
Mas seres livre é a minha taça
que posso assim atirar
ao fim do caminho da minha desilusão

para o imenso lago negro do descontentamento

Sem remorso


sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

As Horas da Nossa Solidão





Acendo um cigarro
Amargo.....
este não partilha a tua boca
A alma que não tenho sangra-me as mãos
Deixa-me uma carícia salgada e cai para o abismo da rua
Elas ainda têm o teu cheiro, sabes?
Perfumas-me a cara sem o saberes
enquanto tento afagar a chaga que tenho na alma que não tenho.
O teu cheiro apaga-se.
mais e mais cada vez que vais ele me perfuma menos
E isso aperta-me
Não tenho força mais nas mãos para segurar as tuas.
Já não tenho força nas mãos para agarrar a brisa que deixas quando vais
Para agarrar o teu perfume
Já não tenho o sabor da felicidade na tua boca
E cada Domingo é cada vez mais o meu salão
Onde danço a minha valsa a um
o meu pas-de-deux com a solidão
a minha bailarina amiga
a quem posso agarrar com as duas mãos


São 4 da manhã...
Meus pés são teus, bailarina
Dança comigo então esse Tango do desespero...

Classificado


Vende-se, Aluga-se, Oferece-se
Negócio de ocasião!
Com estofos de
solidão
Pintura cinzenta, segunda demão
Metalizado
Enferrujado
Mas de resto bem acondicionado
Resguardado
De qualquer agressão
Anestesiado
Para a eventualidade de qualquer situação
Remendado,
derivado
de, em mais do que uma ocasião,
ter encontrado
necessitado
um igual da sua condição
e depois da inevitável colisão
ter ficado
apaixonado
irremediado
e sem solução.
Abandonado
Desolado
terá por vezes gripado
mas encontra-se contudo equipado
com uma perfeita exaustão
e anos de escapes cromados

Vende-se, Aluga-se, Oferece-se
Coração.
Em mau estado
De conservação
E poucas ou raras vezes utilizado...

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A Estrada Para Safira



Ontem esqueci-me de ti por um bocado
Deixei cair os braços cansado e voltei a amar-te
Sonhei que era eu a abraçar-te
E eram os lábios de alguém que já foste
que me queimavam.
Era o teu cabelo que me aconchegava
Embriagava-me
E tive medo de mim.
Tive medo de te querer enrolar em mim
Respirar-te, comer o teu hálito
Morder-te
Outra vez
Tive medo de olhar para ti
Como tive medo de amar-te
A nossa vida foi como esta estrada
Que me pergunta onde vou agora que a deixo
Que foi feito de ti?
Deixaste a estrada. respondi
Fez-te mal o amargo da viagem
para quem pensa ter á espera uma casa de cartolina com varandas de papel
O nosso amor era como a estrada para Safira
Deserta
Sozinha
Um caminho para um sítio esquecido
Onde estou agora
Sem ti