Nunca é tarde demais, mas sei que já vem tarde esta viagem. Isto são pequenos pedaços de nada que escondi, esqueci, deixei a marinar... Uns no pó de gavetas, outros no pó de mim mesmo. Já era altura de verem a luz... Disfrutem.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Boa Noite Assassina


As lápides de cimento armado caem-te em cima
com o peso de um suspiro cansado
magoado
decadente
uma cidade feita da neblina de lamentos
repetidos até não fazerem mais sentido
que te agasalha
como um cobertor feito de cinzento
feito dos ossos de que são feitos os teus sonhos
Esta cidade tem dedos.
E apertam-te, os malditos...
Esmagam-te
Engasgam-te com o seu suor de sabor a vidro
Causa-te desconforto esse colete de forças
essa corda transparente.
queres puxar um grito do fundo da tua claustrofobia
Queres bater no mundo
mas o cabrão é maior que tu...
e sôfrego de afronta baixas a cabeça
porque já perdeste a coragem de olhar em frente
de dizer para os olhos dos mortos que viajam contigo
"eu também sei o que é isso"

Dói-te o anteontem
e logo agora que se te acabaram os comprimidos....

Paisagem


A vista daqui é linda
Anda ver...

Olha ali as árvores queimadas do meu pensamento
e as pedras... Rugosas, ásperas, gémeas dos meus sentidos
enegrecidos
O vento suave dá-me chapadas meigas
rudes como as minhas palavras

O ar da montanha dos meus arrependimentos
enche-me os pulmões de sede
meu coração preto como um braseiro
apagado
assincopado
bombeia-me cinza pelas veias
para o corpo inteiro
desmaiado
Pompeia-me uma nuvem de desejava's
aldraba-me a língua e entontece-me
embebeda-me
sim, tu. embebeda-me com o teu nada!
adormece-me os membros com a tua semiótica
droga-me com a tua vontade de ser teu
Tira-me daqui agora.
leva-me
carrega-me nos braços das tuas frases-feitas
quero descansar os olhos de não ter visto nada

Vê se a vista daqui é bonita
Vem ver
Que eu não consigo

quarta-feira, 10 de março de 2010

Vê lá bem. Se calhar foi o Caldo Verde



envergonhaste o sol com a voz
deixaste-o amuado confuso, tonto
angustiado... triste, pronto!
a murmurar "já fui. a lua virá aí, após"

Determinaste o céu com o olhar
para que ele te fosse indeciso,
ser consolo, ser-te preciso
ser-te sentido, sentir-te a pulsar

inventaste trinta e meia maravilhas
para que as quisesses fazer
ocorrer
e trinta e duas meias guerrilhas
para as fazer adormecer
morrer

queres sentir-te viva afinal
ainda és dona, dor de um instante
de um fino charmoso elegante
je ne sais quoi intelectual

animal
e sempre sempre a tua fome
doente
de viver
fundamental

rainha doida que ocupa ausente
o sempre carente trono do desalento
o punho dormente pede-te que o lamento
que te dorme na boca se lamente
de vez
e de repente
3

2

um estalo de ti faz-te vir a ti
depois?
tudo parece anormal
fundamental
outra vez
nada mais deixou de ser castanho aqui

e a boca sabe-te a um orgasmo ao contrário
se é que sabes de quem ou a que sabe
se não ocupa lugar, o saber, sabor, onde cabe?
sapienta, saborosa, ris-te do teu insano corolário


tens os fios de sabedoria a pender da tua deiade
enquanto a tua enormidade
escorrega da verdade fundamental
que se apoia na ovalidade
e perfeito apoio elementar
(ocasional)
de uma estrutura filosófica vulgar
de um material
fantástico
que mais não é que normal
Plástico

e contudo, tremente
premente
ainda
sempre sempre a tua vontade
doente
de viver
fundamental



e quando ainda a tua vontade doente
fundamental
animal

é presente
de viver
se calhar, vê lá bem
ela se calhar é maior que ti, sem querer

Vá lá......




Dá-me boleia
Para esse sítio que sussurras
Onde a Lua não desce
Nem o Sol aparece
Dá-me o lugar do morto
que seja
debaixo dessa ponte
que tens medo de passar
Onde,com medo de gritar
Segredas...
Um abrigo
onde possa descansar
No teu jazigo bom
Onde morrem os meus medos
Onde a tua maravilha se esconde
e não me deixas entrar
transporta-me
quero saber o teu segredo
falar do tempo que faz e de conversas sem sentido
se calhar já vias os teus amortecedores
e me contavas o que te faz franzir os olhos
o que os faz brilhar
o que os faz sorrir
Quero um tandem
a dois!
e uma fotografia sépia de nós
comigo de bigode e contigo de ti
um pic-nic no campo, uma toalha aos quadrados
e esse teu sorriso parvo
quente
calmo
adorme.....ce...n...te...
quero saber que doença estranha tens que não te deixa chorar....
e acordo
sem bigode
sem ti
sonhar e tudo quanto escrevi não passou de um sonho...
o cliché mais cliché ....
mas acordo e sonho de pé
e sorrio como tu
Acto I:
estou á beira da estrada
estava á tua espera
que me abrisses a porta e me perguntasses
"para onde vais?"
e eu sorrisse e dissesse
"para ti"

domingo, 24 de janeiro de 2010

Calma


Dormem almas vagabundas, apagadas
Inocentes, numa cama de marasmo
e cantam, presas, como vozes de um orgasmo
por grilhetas de razão aferrolhadas

Fluem mudas pela pena que as criou
Indolentes, de vontades indomadas
Pois a vida sao somente as madrugadas
que um desejo moribundo abandonou

Breve dissertação sobre a desilusão da Gramática


Tenho vontade canibal
de me morder
E escrever
Sobre não conseguir escrever
sobre o que não quero dizer
Mas contrária aos meus protestos
veementes
ao que parece
a caneta continua a correr
Definitivamente
já nem a minha vontade me
obedece.
Olá folha, confidente
(não me responde....) Insolente!
,diz a boca (...alega que não me conhece)
e os olhos (para quem a minha opinião não é assim tão importante)
seguem, em calma e distraída souplesse,
a tinta que ejacula alegremente
neste mar de celulose
que se apresenta á minha frente.
Um orgasmo lexical
que continua a desfilar
despreocupadamente
a desfiar a minha mente
sem nexo
sem sexo
no quadrado
de lado
maior vertical
que é esta pedaço branco de matéria vegetal.
Despudoradamente
desordenadamente
Sem ter em atenção
a vontade e a razão
do dono do punho que desespera
(com indisfarçável ansiedade)
pelo fim da dissertação
Era tão bom, não era?
Que a Humanidade
fosse apenas uma mera
força de expressão?.....

sábado, 23 de janeiro de 2010

Na cama de Lúcia



Ficava triste Lúcia
e
numa noit
ensopava a almofada com os medos
Olhando o mar que não existia ali
Só pó e pedras e dor e morte
Naquela muralha agora sua
De súbito a vida..
a tão esperada tão odiada vida
perdida num eterno instante
num infinito agora
num imenso hoje tão noite
era a vida que a chamava
a outra ela
A sua esperança gritava por vingança
dentro dela
Um lugar que nunca tinha tido nada
Estava vazio
a sua solidão tinha ali partido
Abre os olhos tristes, Lúcia...
Pobre Lúcia
Triste Lúcia
Olha para o nada que te chama dali mesmo
Do teu reflexo
Olha para a surdez de olhar para ti Continuas a chorar o adeus dos teus desabafos?
A morder o ressentimento dos teus passados?
ingénua Lúcia.... Fecha os olhos agora... Já nada existe.... Nem sequer tu.

Epitáfio de um amor estacado





Estalo os cascos na Via Ápia de ti
e das pedras apenas brota sangue
Apenas jorra Muito,
por te amar assim,
corrosivo
distante
calado.
Tenho prazer nesta obsessão?
Já não sei...
Sei que acho que tenho a certeza
que talvez os meus sonhos
Sejam feitos do teu descanso
Rebolam alegres em mim quando durmo
Assobiam-me ao ouvido uma brisa indecisa
Os teus olhos passam através de mim como faíscas de indefinido
e os teus lábios pedem-me orações carnívoras de paixão e remorso
Tudo em ti me socorre
Chamo por ti
procissão maldita de todo tu e nenhum eu
Rasgo todo o sentimento
despedaço o amor, paixão
luta
E tu sorris...
E apanhas os pedaços como confetti de papel pardo
para os esculpir na forma do teu infinito.
Não sou meu se não te saborear.
Mas seres livre é a minha taça
que posso assim atirar
ao fim do caminho da minha desilusão

para o imenso lago negro do descontentamento

Sem remorso


sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

As Horas da Nossa Solidão





Acendo um cigarro
Amargo.....
este não partilha a tua boca
A alma que não tenho sangra-me as mãos
Deixa-me uma carícia salgada e cai para o abismo da rua
Elas ainda têm o teu cheiro, sabes?
Perfumas-me a cara sem o saberes
enquanto tento afagar a chaga que tenho na alma que não tenho.
O teu cheiro apaga-se.
mais e mais cada vez que vais ele me perfuma menos
E isso aperta-me
Não tenho força mais nas mãos para segurar as tuas.
Já não tenho força nas mãos para agarrar a brisa que deixas quando vais
Para agarrar o teu perfume
Já não tenho o sabor da felicidade na tua boca
E cada Domingo é cada vez mais o meu salão
Onde danço a minha valsa a um
o meu pas-de-deux com a solidão
a minha bailarina amiga
a quem posso agarrar com as duas mãos


São 4 da manhã...
Meus pés são teus, bailarina
Dança comigo então esse Tango do desespero...

Classificado


Vende-se, Aluga-se, Oferece-se
Negócio de ocasião!
Com estofos de
solidão
Pintura cinzenta, segunda demão
Metalizado
Enferrujado
Mas de resto bem acondicionado
Resguardado
De qualquer agressão
Anestesiado
Para a eventualidade de qualquer situação
Remendado,
derivado
de, em mais do que uma ocasião,
ter encontrado
necessitado
um igual da sua condição
e depois da inevitável colisão
ter ficado
apaixonado
irremediado
e sem solução.
Abandonado
Desolado
terá por vezes gripado
mas encontra-se contudo equipado
com uma perfeita exaustão
e anos de escapes cromados

Vende-se, Aluga-se, Oferece-se
Coração.
Em mau estado
De conservação
E poucas ou raras vezes utilizado...

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A Estrada Para Safira



Ontem esqueci-me de ti por um bocado
Deixei cair os braços cansado e voltei a amar-te
Sonhei que era eu a abraçar-te
E eram os lábios de alguém que já foste
que me queimavam.
Era o teu cabelo que me aconchegava
Embriagava-me
E tive medo de mim.
Tive medo de te querer enrolar em mim
Respirar-te, comer o teu hálito
Morder-te
Outra vez
Tive medo de olhar para ti
Como tive medo de amar-te
A nossa vida foi como esta estrada
Que me pergunta onde vou agora que a deixo
Que foi feito de ti?
Deixaste a estrada. respondi
Fez-te mal o amargo da viagem
para quem pensa ter á espera uma casa de cartolina com varandas de papel
O nosso amor era como a estrada para Safira
Deserta
Sozinha
Um caminho para um sítio esquecido
Onde estou agora
Sem ti